Agora neste post, divulgo a entrevista que fiz via e-mail com a orientadora da bolsista Thiara Pagani, a atriz e cantora profissional Nívea Carla. A entrevista está bastante interessante, pois fornece um panorama da importancia da voz, que o artista cênico capixaba precisa ter em mente.
Nívea, acredita que a prática da dança e o estudo da música, são essenciais para um bom desempenho no fazer teatral. Confira:
1) Olá Nívia, fale um pouco sobre sua formação artística e sua identificação com o teatro e a música.
Comecei a estudar teatro em 1998. A maior parte da minha formação foi através da escola FAFI, onde em 1999 tive o meu primeiro contato com aulas de expressão vocal, com o professor Marcos Rivero. Paralelamente ao curso de teatro fiz aulas de canto particular com o mesmo, durante um ano. Em 2002 me formei no curso “Qualificação Profissional em Teatro” na mesma escola, que também tinha em sua grade curricular aulas de voz com o professor Patrick Duval durante 2 anos. Em 2003 estudei canto com o maestro Cláudio Modesto e, de 2005 a 2008, com Aretha Leandro.
Durante esse tempo também fiz oficinas de dança como a Flamenca, com Gisele Ferreira, Street dance, com o grupo Street Dance Vitória, Afro, com o grupo Negraô, Jazz, com Tadeu Schneider e agora Ballet na escola Mônica Tenore.
Em 2006 trabalhei com a “Banda 10” como Backing Vocal e de 2007 a 2010 com Andréa Nery & Banda.
Hoje estou no 5º período de Fonoaudiologia na UVV- Centro Universitário Vila Velha.
Sempre entendi que o ator precisa conhecer e saber usar seu instrumento de trabalho: o seu corpo. Dentre muitos, saber dançar, cantar e interpretar. Mesmo que ele não precise dançar em uma peça, a dança lhe dará consciência corporal e mais possibilidades de criação da personagem. No canto, com a técnica, ele poderá explorar sua voz, que é tão exigida na profissão. A música e a dança te dão coordenação motora e ritmo. Um andar de um personagem tem um ritmo próprio. Então sempre estudei a música, a dança e a interpretação para um mesmo fim: o Teatro. Estão todos interligados, um sustentando o outro.
2) Nívia, gostaria que você falasse sobre a sua relação com Thiara, e o que levou esta a te convidar a ser a orientadora no projeto de capacitação?
Thiara me conheceu há 5 anos. Em 2010 ela fez parte da técnica do musical “Boulevard 83” de Leandro Bacellar, do Grupo Teatro Empório, da qual eu era atriz, e posteriormente entrou para o grupo. Assim, tivemos um contato e troca de informações maiores. Thiara sabe do meu interesse em me especializar na área de Voz dentro da minha graduação, e então trabalhar com atores e cantores. Esse projeto não é experiência apenas para ela, mas também para mim.
3) Todos nós que temos contato com o fazer teatral, e até mesmo o público, sente a deficiência que muitos atores capixabas têm no aparelho vocal. Como você identifica essa problemática, se é que ela existe?
Muitos atores em Vitória desconhecem os problemas causados pela má utilização e uso exagerado da voz, pela falta de informação ou de conscientização. Alguns atores profissionais estudaram comigo, com os mesmos professores e acesso às mesmas orientações, entretanto não as seguiram por se julgarem dotados de uma “voz forte e resistente”, como já ouvi. Hoje, alguns precisam de cirurgia e outros de fonoterapia. Muitos nem sabem que possuem alterações na sua produção da vocal ou acham desnecessários os exercícios. Não sabem que voz falada é diferente de voz cantada ou da exigida no teatro. E que existem resistências diferentes de organismo pra organismo. Uns podem ganhar uma alteração em 6 meses, outros em 2 anos.
O ator precisa fazer aquecimento e desaquecimento vocal. Uma bailarina não entra em cena sem se alongar e aquecer. Além de lhe dar elasticidade e precisão dos movimentos, tem o objetivo de protegê-la de lesões musculares. Prega vocal é constituída (grande parte) de músculo, portanto também pode ser lesionado. Rouquidão constante, dor na laringe, aspereza e soprosidade na voz, tensão muscular são indícios de alterações que podem ser nódulos (calos), fendas ou pólipos vocais, dentre muitos.
Sempre digo para se ter cuidado na escolha do professor de canto. Alguns sequer conhecem realmente o aparelho fonador. Vejo também atores com informações totalmente equivocadas, adquiridas através de professores de teatro que acreditam dominar a técnica vocal. Já ouvi que o principal músculo da respiração, o diafragma, se localiza abaixo do umbigo. Quando na verdade é logo abaixo do pulmão.
No Brasil essa visão de que o ator não precisa do canto e da dança está sendo modificada com a chegada das produções de musicais. Espero que mude aqui também.
4) “O Canto como Instrumento Potencializador da Voz do Ator”, esse é o nome do projeto. Qual a importância do canto para o aprimoramento vocal de Thiara? Quais os benefícios que as aulas estão trazendo para a bolsista?
As técnicas do canto, além de habilitá-la para cantar no teatro, lhe darão consciência maior do seu aparelho fonador, dos músculos intrínsecos e extrínsecos da sua laringe e o domínio de todo o seu registro e tessitura vocais, que serão usados na criação da voz de seus personagens, que podem ter características bem distintas: muito agudo, muito grave, gutural, estridente, etc. É difícil para o ator sair da sua produção de voz no seu tom fundamental para uma que é bem diferente da sua. O professor de canto com o fonoaudiólogo vai auxiliá-lo nisso.
Thiara não havia feito aulas de canto antes. Somente oficinas muito curtas de voz. Lembrando que não basta saber como é o exercício, mas como fazer corretamente, pois se feito de forma equivocada pode causar uma lesão ou piorar o que já existe.
Thiara está utilizando melhor o diafragma e percebendo uma resistência maior no uso da voz em seus trabalhos.
5) A metodologia da capacitação é muito interessante, com consultas ao fonoaudiólogo e ao otorrinolaringologista e aulas com professores de canto e ginástica respiratória. Qual a importância desses profissionais na preparação vocal do ator?
A primeira coisa que se deve fazer quando se começa a estudar teatro ou canto é fazer a videolaringoscopia. É um exame simples, feito pelo Otorrinolaringologista, que através de uma micro-câmera visualiza a laringe e as pregas vocais na fonação e que detecta alterações comuns nos profissionais da voz. Todo professor sério e capacitado deveria pedir o exame.
Se constatado alguma alteração, esta deverá ser tratada com um fonoaudiólogo, que não só reabilita, mas também previne. O fonoaudiólogo avalia uma série de itens como a postura, a respiração, a ressonância, a articulação e com exercícios específicos vai condicionar e fortalecer a musculatura respiratória e fazer com que o ator e/ou cantor use o máximo de potência de sua voz, sem agredi-la.
A ginástica respiratória, que consiste em aulas coreografadas, com o aluno dançando, com um tipo de respiração específica, controlada e determinada pelo professor (ex. inspira em 4 tempos e solta em 1), o aluno ganha “fôlego” para falar ou cantar exercendo uma atividade, dançando ou correndo, por exemplo. Aprende a controlar melhor a saída do fluxo de ar, enquanto os batimentos cardíacos estão acelerados. Geralmente acontece o contrário: Batimento cardíaco acelerado = pouco controle do fluxo de ar).
Com o trabalho em conjunto desses profissionais o ator consegue otimizar a sua produção vocal sem prejudicá-la.
6) Você e Thiara fazem parte do Grupo Teatro Empório, e estavam em cartaz com o espetáculo Rosa Negra, que inclusive foi sucesso de público. Você também é orientadora de Diego Carneiro, bolsista do programa, que também faz parte do grupo. Como você vê a atuação do Programa Rede Cultura Jovem (PRCJ) na fomentação da produção artística jovem capixaba e no aprimoramento dos dois integrantes do grupo, que são bolsistas do programa?
Acredito que esse programa veio para apoiar o crescimento cultural dos jovens capixabas, que não teriam a oportunidade de adquirir ou aprimorar seus conhecimentos sem essa sustentação. Penso que é um projeto de formiguinha. Aos poucos ele vem sendo construído e vai ser passado adiante. Tenho certeza que Diego e Thiara vão levar o conhecimento que ganharam a outras pessoas, contribuindo para o aperfeiçoamento dos atores do teatro capixaba. Seria muito importante a continuação desse projeto do Programa Rede Cultura Jovem para um aperfeiçoamento maior desses jovens, que mais tarde poderiam ser, quem sabe, professores dos próximos bolsistas
Allan Moscon
https://twitter.com/AllanMoscon
Fonte:http://redeculturajovem.com.br/agentes/diario-bordo-allan/2010/09/08/entrevista-com-nivea-carla/
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